
Já escrevi diversas vezes sobre como desempenhar o papel de cuidador é uma tarefa
desgastante, estressante e, quase sempre, pouco valorizada. No entanto, mesmo que o ente
querido tenha tido um fim de vida de sofrimento, sua morte não traz alívio, e sim um enorme
sentimento de vazio que acompanha a dor da perda. Os anos de dedicação definem a jornada
do cuidador, por isso o término da função pode provocar uma crise profunda. Esse era o
conteúdo de um impactante artigo de Amy Goyer, autora do livro “Juggling work and
caregiving” (“Fazendo malabarismos entre o trabalho e cuidar”). Há 35 anos ela é consultora
na área de envelhecimento e relações familiares, mas a experiência não a blindou da sensação
de ter perdido o propósito da própria existência depois da morte do pai, ainda mais porque
havia dado assistência a outros membros da família, como a mãe e a irmã, e ali se encerrava
um ciclo que havia ditado sua trajetória.
Quando o cuidador não é profissional, seu luto não se resume à dor, ao sentimento de vazio.
Pode ter implicações dramáticas inclusive do ponto de vista financeiro, porque uma parcela
significativa abre mão do emprego para se dedicar a essa tarefa. Fora do mercado de trabalho,
sem tempo ou oportunidade para se qualificar, há um horizonte sombrio pela frente. Por isso,
por mais que pareça egoísta pensar no assunto, é preciso planejar o que fazer na sequência da
perda. Amy conta que, no primeiro ano após o falecimento do pai, estava sempre doente: “os
médicos me diziam que meu sistema imunológico estava comprometido por causa do estresse
prologado. Eu estava física, emocional e mentalmente esgotada. Quando o compromisso de
cuidar de alguém acabou, eu simplesmente desabei”, escreveu.
Acho importante compartilhar o desabafo de uma expert no assunto porque é um problema
vivido por muita gente, que, com frequência, não procura ajuda. Na verdade, o senso comum é
de que o cuidador vai se sentir “aliviado”. Mas como se, durante anos a fio, a vida foi
exatamente se dedicar ao outro? Embora não exista uma receita mágica, o caminho de volta à
paz de espírito e à alegria passa pelo resgate de pequenos prazeres, como fazer exercício,
relaxar, meditar e se dedicar a atividades criativas. São coisas deixadas de lado por quem está
focado apenas em garantir o bem-estar dos entes queridos e se esquece das próprias
necessidades. Cuidar-se e reconstruir a vida acaba se transformando numa homenagem aos
que se foram. (G1.com)




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